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SBPA-RJ http://sbpa-rj.org.br/site Psicologia, Psicologia analítica Thu, 17 Dec 2015 14:18:24 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.0 FORMAÇÃO SBPA-RJ http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1921 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1921#comments Tue, 21 May 2013 21:52:15 +0000 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1921 Aberta a seleção da VII turma de Formação de Analistas, no primeiro semestre de 2016.
A Formação segue as normas

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Aberta a seleção da VII turma de Formação de Analistas, no primeiro semestre de 2016.
A Formação segue as normas da SBPA e da Internacional Association for Analytical Psichology (IAAP).
Formação.sbparj@gmail.com

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http://sbpa-rj.org.br/site/?page_id=1271 http://sbpa-rj.org.br/site/?page_id=1271#comments Wed, 16 Jan 2013 15:00:57 +0000 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1872 “A função geral dos sonhos é tentar reestabelecer a nossa balança psicológica, produzindo um material onírico que reconstitui, de maneira…

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“A função geral dos sonhos é tentar reestabelecer a nossa balança psicológica, produzindo um material onírico que reconstitui, de maneira sutil, o equilíbrio psíquico total. É ao que chamo função complementar (ou compensatória) dos sonhos na nossa constituição psíquica.”
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Visite o site da SBPA em São Paulo http://www.sbpa.org.br/ http://www.sbpa.org.br/#comments Wed, 16 Jan 2013 14:00:34 +0000 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1880

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SBPA-RJ – Aberta a seleção para VII turma de formação de analistas http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1850 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1850#comments Wed, 16 Jan 2013 12:30:25 +0000 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1850 A SBPA-RJ anuncia que está aberta a seleção para VII turma de formação de analistas
Datas do processo

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A SBPA-RJ anuncia que está aberta a seleção para VII turma de formação de analistas
Datas do processo de seleção:
03 de junho 2013 – último dia para inscrições e entrega de material
08 de junho – Prova

O custo da formação ficará em R$ 500,00 (Quinhentos reais mensais) com reajustes anuais.

Custo da Inscrição: R$150 primeira etapa

Bradesco – Agência 1852-0  C/C – 360-3  SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA ANALITICA

Para os aprovados na primeira etapa (inscrições e entrega de material), haverá uma segunda etapa de entrevistas com custo de inscrição também de R$ 150,00.

Pré requesitos

Ser psicólogo(a) ou médico(a) com registro no respectivo Conselho Regional há pelo menos 2 (dois) anos.

Ter comprovado 2 (dois) anos de exercício de prática clínica em psicoterapia

Ter comprovado 50 (cinquenta) horas de supervisão clínica individual ou em grupo, de preferência com analista junguiano.

Ter comprovado vivência mínima de 100 (cem) horas de análise individual, sendo as mesmas realizadas num intervalo máxima de 2 (dois) anos.

No ato de inscrição os seguintes documentos são exigidos:

  • comprovante de inscrição no CRM / CRP em 3 (três) vias;
  • declaração do analista, com número de horas e período de análise individual, em 3 (três) vias;
  • declaração do supervisor com o número de horas de supervisão individual e/ou em grupo, com datas e períodos de realização, em 3 (três) vias;
  • curriculum profissional datilografado (papel A4 /espaço 2) em 3 (três) vias;
  • biografia pessoal, datilografada (papel A4 /espaço 2) em 3 (três) vias;
  • 3 (três) fotos coloridas tamanho 9×6 ou 7×5 (tipo passaporte), cuja finalidade é identificar o candidato, evitando impedimentos prévios junto ao selecionador;
  • comprovante de pagamento de taxa de inscrição para o concurso, sendo que a taxa de inscrição não será devolvida caso haja desistência;
  • ficha de inscrição, devidamente preenchida e assinada, expedida pela secretaria da SBPA, na qual o candidato toma ciência das normas e procedimentos do referido concurso;

A formação seguirá as normas da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA) e da International Association for Analytical Psychology (IAAP)

Inscrições e informações: Enviar email com nome e telefone para: sbparj@bighost.com.br

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C. G. Jung – Meio Século Depois 1961-2011 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1343 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1343#comments Fri, 15 Jul 2011 21:37:54 +0000 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1343 Clique e veja as fotos do evento realizado no Rio de Janeiro em 20/08/2011 pela SBPA-RJ.

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Clique e veja as fotos do evento realizado no Rio de Janeiro em 20/08/2011 pela SBPA-RJ.

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Livro Vermelho-a construçao da arca http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1329 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1329#comments Sun, 29 May 2011 21:27:02 +0000 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1329 Quando se divulgava a tradução do Livro Vermelho para o português, feita pela Editora Vozes, eu estava lendo um trabalho…

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Quando se divulgava a tradução do Livro Vermelho para o português, feita pela Editora Vozes, eu estava lendo um trabalho de Helene Jung, filha de Jung, onde o leitor se depara com  uma interessante distinção entre  duas figuras fundamentais  na formação da Igreja Católica.

De acordo com Helene, Paulo, homem de idéias, não partilha a intimidade de Jesus e  não convive com ele. Paulo tem a revelação, a experiência do sagrado, a vivência do numinoso quando Jesus já havia se transformado no Cristo.

Pedro, ao contrário, convive com Jesus,  segue de perto o homem que ele, um simples pescador,  reconhece como Mestre. O numinoso apresenta-se a Pedro no dia a dia, nas grandes e nas pequenas coisas presentes num relacionamento íntimo.

A partir daí, do encontro com o sagrado, a vida de ambos, Paulo e Pedro, ganhou um sentido espiritual.

Reconheço Jung como homem de idéias, como Paulo e pescador, como Pedro. Ao jogar sua rede sobre o inconsciente, percebe que internamente refletimos o Cosmos:  é o  Apóstolo do Self. E é pedra, como Pedro, quando dá embasamento à construção de uma Obra, no caso, a Psicologia Analítica. Até hoje nos alimentamos desta pesca junguiana e mais, com ele aprendemos a pescar. Cabe a nós dar continuidade à pesca e à construção da Psicologia Analítica pois, sendo Junguianos, não nos  é suficiente ser apenas seguidores: queremos ser construtores.

Como homem de idéias, Jung dialoga com as imagens do Inconsciente, tem sua experiência do sagrado e elabora essa experiência, escrevendo sobre o psiquismo.

No prólogo da primeira edição de “Memórias, Sonhos e  Reflexões”, ele nos fala:

“A lembrança dos fatos exteriores de minha vida, em sua maior parte, esfumou-se em meu espírito ou então desapareceu. Mas os encontros com a outra realidade, o embate com o Inconsciente, se impregnou de maneira indelével em minha memória. Nessa região sempre houve abundância e riqueza; o restante ocupava o segundo plano” C. G. Jung – 1958

Jung foi um homem introvertido que conseguiu, na juventude, buscar seu lugar no mundo, realizar-se profissionalmente, constituir uma família. Mas foi do Inconsciente  que ele trouxe as imagens, símbolos arquetípicos, de onde chegam as idéias para sua teoria psicológica. Para ele, o Inconsciente é o centro da criação. O símbolo faz a união entre os mundos da consciência e do Inconsciente. Segundo ele, é da essência do símbolo conter esses dois lados. Afirma que os símbolos provêm do inconsciente, cuja função mais importante é formar símbolos, juntamente com o trabalho do ego.

Desde sua infância, Jung percebe em si e também em sua mãe, a presença de duas personalidades: a personalidade número 1 e a personalidade número 2. A personalidade número 1 é a usual, de acordo com sua idade e com o meio. Já a personalidade número 2, pelo contrário, é misteriosa, possuidora de um conhecimento de origem desconhecida, de outro tempo e lugar.

No Livro Vermelho, é estabelecido um diálogo entre essas personalidades, que também se chamam: espírito daquela época e espírito das profundezas. O espírito daquela época, na luta pela vida, na batalha do Ego por um lugar, na necessidade de auto afirmação, perde a noção da Totalidade. O espírito das profundezas traz a Totalidade, o passado e o futuro, mas não usa palavras, só imagens. A função de criação de símbolos precisa ter vontade consciente para se concretizar. O trabalho é feito com a abertura do ego para a outra esfera do psiquismo, para o mundo dos Arquétipos. O ego viabiliza a expressão do self e trabalha com  sonhos, imaginação ativa, técnicas expressivas e sua posterior elaboração. O trabalho do ego é pescar, receber as imagens, dialogar com elas  e depois elaborá-las.

Em diversas ocasiões, durante suas experiências, Jung mantém uma atitude desconfiada. Sabe da fragilidade do ego diante de forças muito mais poderosas e teme ser ludibriado ou mesmo soterrado por elas. Está consciente todo o tempo da crise de onde surgiu a Imaginação Ativa.

Em diversos escritos de Jung, vemos referência ao Livro Vermelho, onde o autor afirma a importância do livro  para sua obra durante os 16 anos dedicados ao trabalho interno. Segundo suas palavras:

“Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores, constituíram a época mais importante de minha vida, neles, todas as coisas essenciais se decidiram. Foi então que tudo teve início e os detalhes posteriores foram apenas complementos e elucidações. Toda minha atividade ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do Inconsciente naqueles anos e que inicialmente me inundara; era a matéria prima a obra de uma vida inteira”. C. G. Jung – 1957

No período imediatamente antes da primeira grande guerra mundial, Jung sente-se pressionado por sonhos e visões que indicam uma catástrofe de graves conseqüências. Muitos outros intuitivos expressam através da arte suas premonições. Na Europa vive-se uma grande tensão e, além da apreensão coletiva, Jung vive uma crise importante em sua vida. Escreve “Símbolos de Transformação”, rompe com Freud, retira-se da presidência da sociedade psicanalista, fundada por ele com um grupo de analistas.  Precisa de um mergulho em si mesmo para reafirmar suas idéias que, desde o início, são a marca diferencial com Freud. Pressionado pela Individuação, Jung, heroicamente, arrisca sacrificar suas conquistas e faz o mergulho de 16 anos. É o momento de ouvir o self, o espírito das profundezas, a personalidade número 2.

Em plena crise, faz anotações em um livro negro, para uso próprio. Mais adiante, mostra a algumas pessoas esta vivência. Assim, inicia a elaboração do Livro Vermelho, transcrevendo as anotações do livro negro. É comovente observar o cuidado que teve com esse livro, o capricho na elaboração dos desenhos, na escrita, na colagem dos pergaminhos. Por lidar com o sagrado, sua atitude é de respeito e devoção.

Cary Baynes, tradutora de ensaios de Jung para o inglês e seu marido, Peter Baynes, tradutor de “Os Sete Sermões dos Mortos”, são duas das pessoas que recebem de Jung o manuscrito. Cary Baynes diz:

“O Livro Vermelho é a passagem do Universo pela alma de um homem e, assim como uma pessoa fica parada junto ao mar e ouve essa musica muito estranha e terrível e não é capaz de explicar porque seu coração dói ou porque um grito de prazer quer pular de sua garganta,    assim eu pensava que seria com o livro vermelho e que um homem seria forçosamente arrastado  para fora de si pela majestade  dele e elevado a alturas  a que ele nunca tinha sido…..

Sonu Shamdasani, analista junguiano, consegue da família de Jung, a permissão para editar o Livro Vermelho e, numa rica introdução, diz que em 1914, ao ler “Assim falou Zaratustra”, Jung dá forma à estrutura do Livro Vermelho. A estrutura da comédia de Dante, também está presente. Assim como Zaratustra em Nietzsche e Virgílio em Dante, Filemon o representa. A  importante imagem de Filemon surge em variados e profundos diálogos.

“Enquanto Zaratustra proclamava a morte de deus, Liber Novus  desenha o renascimento de Deus na alma”

e

“Enquanto Dante pode se utilizar de uma cosmologia estabelecida, Liber Novus é uma tentativa de formar uma cosmologia individual”. Sonu Shamdasani – 2009

Quero falar de minha emoção de analista junguiana, por ter hoje em minha casa, depois de tantos anos em que sei de sua existência, um exemplar do Livro Vermelho.  Sinto-me fruindo da intimidade de quem eu tanto admiro.

Quando estamos mergulhados na leitura de um bom livro, nosso corpo está relaxado num sofá, numa cama, poltrona ou cadeira e, através dos olhos, recebemos as informações que mexem com nossas idéias e emoções. Para ler o Livro Vermelho é preciso inovar, descobrir seu jeito.Pus o livro sobre uma mesa redonda, comecei por circunambular em volta dele, fiz isso alguns dias, antes do mergulho. Folheei, circunambulei, assim como faço com os símbolos no meu consultório ou com os meus,  detive- me nas imagens e, depois, de olhos fechados, revia-as. Agora, me debruço sobre ele e o abraço durante a leitura.

Sugiro à Editora Vozes, a criação de um livro de uma brochura, só com a parte em português, para acompanhar na compra do Livro Vermelho. Nossas colunas vertebrais vão agradecer. (segundo Teobaldo, da Vozes, qualquer inovação em relação ao Livro Vermelho deve ser submetida à família de Jung).

Ao escrever o Livro Vermelho, sofrer a dor da perda da segurança nos valores científicos, receber as imagens, dialogar com elas e depois elaborá-las, Jung fez seu processo de Individuação, e, portanto, pode falar:

“a história de minha vida é a história de um Inconsciente que se realizou”.C. G. Jung – 1958

Jung rompeu com a falta de espiritualidade do espírito daquela época, recuperou em si a imagem do Divino e transformou sua Cosmovisão.

Eu também fiz minha pesca e, pensando no Livro Vermelho e em Jung, joguei minha rede. Veio uma imagem. A imagem de um ser transcendental chegou dizendo que era Noé e eu acreditei. Noé foi quem escapou do dilúvio, foi poupado por deus e repovoou a terra. Ele falou da necessidade de mantermos nossa ligação com o sagrado, fonte de nossa vida e da vida sobre a terra.  E disse também que o livro vermelho era uma espécie de barco, ou seja: “Para Jung, o Livro Vermelho, foi a Arca que o levou em segurança na travessia das águas do Dilúvio”

Evento: A espiritualidade no mundo contemporâneo – 2010

Autora: Gloria Lotfi

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Por uma psique menos egoica http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1312 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1312#comments Tue, 05 Oct 2010 15:43:18 +0000 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=1312 Por uma psique menos egoica ou:
Depois de abraçar Jung, falei com Lacan, que me disse:
– Quando…

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Por uma psique menos egoica ou:
Depois de abraçar Jung, falei com Lacan, que me disse:
– Quando se está apaixonado, se é louco…
Eles te virão oferecer o ouro da Terra
E tu dirás que não.
A beleza…
E tu dirás que não.
O amor
E tu dirás que não, para sempre.
Eles te oferecerão o ouro d’além da Terra
E tu dirás sempre o mesmo.
Porque tens o segredo de tudo
E sabes que o único bem é o teu.
Cecília Meireles
Cântico XIV

Conversando à beira do mar com uma amiga psicanalista, obtive dela a seguinte avaliação:
– Os junguianos são pretensiosos.

Feita assim, de repente, a afirmação pareceu-me, além de radical, incompreensível. Iniciando minha formação em psicologia analítica, não tinha eu, então, argumentos consistentes para me confrontar de imediato com tal crítica. Preferi ficar em silêncio, enquanto mar e areia se encontravam em um novo abraço. Depois, continuamos a falar de psicanálise. Afinal, eu acabara de encerrar minha convivência de cinco anos com uma instituição lacaniana para mergulhar no universo junguiano. A decisão, um tanto difícil, era, porém, uma questão de conforto e coerência com minha análise junguiana.

– Freud, Lacan, Jung… Não há entre estes autores quem seja melhor que o outro – dissera minha orientadora na instituição lacaniana. – Também os escolhemos por uma questão de subjetividade e estilo pessoal no trabalho.

Diferentemente do julgamento crítico de minha amiga, também lacaniana, preferi o estilo ponderado de minha orientadora.  Se fosse responder hoje àquela pergunta feita à beira do mar, indagaria: “Pretensiosos…? Mas logo os junguianos, que parecem tanto se preocupar com as inflações do ego?”. Contudo, imediatamente me lembraria  da entrevista dada por Jung antes de morrer em 1961. John Freeman, da BBC, querendo saber sobre a crença em Deus no passado e no presente do entrevistado, pergunta-lhe:

E você acreditava em Deus?
Oh, sim.
E acredita agora em Deus?
Agora? [Pausa] Difícil de responder. Eu sei. Eu não preciso acreditar. Eu sei.  (McGUIRE, 1993, 428, tradução do autor).

Num primeiro momento, pode-se ter a impressão de arrogância e pretensão frente a esta última resposta. Estaria Jung dizendo que não havia necessidade de intermediários entre ele e a experiência de Deus como, por exemplo, a ciência ou mesmo uma religião? Com certeza, a sabedoria não é patrimônio exclusivo dos junguianos e minha orientadora lacaniana mostrou que também existem sábios do lado de lá. Pelo bem e pelo mal, por causa de uma vírgula, o ser humano pode fazer a guerra. Um pouco para lá, um tanto para cá e a bomba explode, o Mar Vermelho não se abre, a mão esquerda faz o que a direita ignora. Na verdade, não precisamos ser junguianos nem lacanianos para corrermos o risco da inflação e da pretensão. Basta sermos apaixonados ou, para usar um termo que Jung usava, basta termos “pressupostos básicos”. No entanto, o que é ser ou estar apaixonado, o que são pressupostos básicos e o que uma coisa tem a ver com a outra?

(Clarke (1993, 133-135)) ajuda-nos a esclarecer a questão dos pressupostos e cita Jung entre aspas:

A superação da visão medieval pela moderna, para Jung, resultou não da força esmagadora de argumentos em seu favor, mas do que equivale a uma mudança de moda. No início do período moderno, ponderou, aproximadamente na época da Reforma e da Revolução Científica nos séculos XVI e XVII, ocorreu uma “catástrofe espiritual”, “uma mudança sem igual na maneira de o homem encarar o mundo” na qual uma “metafísica da mente foi suplantada por uma metafísica da matéria”… Para Jung, a visão pré-científica do mundo, que atribuía um lugar importante e talvez primordial à mente e ao espírito não era menos racional que a nossa. Nenhuma das duas pode ser validada sobre fundamentos lógicos ou empíricos. Ambas repousam no que R.G. Collingwood chamou de “pressupostos absolutos”, que são aceitos ou rejeitados, mas não podem ser provados. A suposição básica de Jung era a de uma “psique autônoma” e a realidade da psique era sua “hipótese de trabalho”. Esse procedimento, alegou, não é mais fantástico do que postular matéria e, na verdade, qualquer uma envolve suposições metafísicas não comprovadas, porque, quanto à realidade da matéria final, nada podemos saber.

A respeito disso, Jung afirmava: “O contraste entre Freud e eu retroage a divergências essenciais em nossos pressupostos básicos” (CLARKE, 1993, 21). E escreveu em uma carta a Freud: ”Minha criação, minha ambiência e minhas premissas científicas são inteiramente distintas das suas” (McGUIRE, 1993, 14). No caso de Deus, porém, desde que Jung teve o pensamento compulsivo de que Deus, sentado no céu em um trono de ouro, evacuava sobre o teto de sua própria igreja (JUNG, 1963, 45-48), pode-se pensar que não se trata de meros pressupostos, mas da vivência singular de uma contínua experiência interior com o sagrado. Assim, ele pareceu explicar melhor em outra ocasião:

Tudo que aprendi levou-me passo a passo a uma inabalável convicção sobre a existência de Deus. Eu só acredito naquilo que sei. E isso elimina a crença. Portanto não baseio a Sua existência na crença, eu sei que Ele existe. (McGUIRE, 1993, 251).

Sabidamente Jung dava importância fundamental ao sentimento religioso, concebendo mesmo no homem um instinto de religiosidade e concedendo ao inconsciente um lugar sagrado, ou o lugar do sagrado em torno do qual se constituem as religiões.

… devo esclarecer que na medida do possível não prego minha crença. Quando me perguntam a respeito, defendo minhas convicções, que não vão além daquilo que considero meu saber. Estou convencido daquilo que sei. Tudo o mais é hipótese. Quanto ao resto há um sem número de coisas que deixo entregue ao desconhecido…  Em minha opinião e sob o ponto de vista da verdade psicológica, qualquer teoria científica, por mais sutil que seja, tem em si mesma menos valor do que o dogma religioso, e isto pelo simples motivo de que uma teoria é forçosa e exclusivamente racional, ao passo que o dogma exprime, por meio de sua imagem, uma totalidade irracional como a experiência psíquica. (JUNG, 1999, § 79).

Talvez caiba mais pensar que, antes de tudo, como adepto da chamada psicologia profunda, empirista assumido e fenomenologista, Jung defendia a inclusão fundamental e inalienável do inconsciente, das emoções e da irracionalidade na experiência humana, fosse esta científica, religiosa ou não. Pelos pressupostos, sejamos cientistas, artistas, políticos, religiosos, filósofos ou psicólogos, podemos sempre pecar na fartura e na miséria, na falta e no excesso, na onipotência e na castração, no amor e no ódio. De fato, parece que se não for assim, nada somos e nada fazemos. Não há sombra sem luz. Não há luz sem sombra. No entanto, se estruturamos nossa consciência na elaboração de nossos complexos inconscientes, não temos necessariamente que viver mergulhados na lama da ignorância. Agora, a forma escolhida por Jung para superar a ignorância não foi a de uma consciência que tenta excluir o inconsciente, mas que, pelo contrário, prefere incluí-lo: “E assim, vocês têm de aprender a se tornarem inconscientes de modo decente” (JAFFÉ, 1995, 149). Foi o que, um dia, disse a seus alunos.

Sempre me impressionaram os filmes que tentam  mostrar o funcionamento de nossos processos neurofisiológicos, como o código genético. Neles vemos as imagens das bases formadoras de aminoácidos movendo-se e encontrando-se autonomamente, encaixando-se peça a peça, como que dirigidas por uma consciência invisível. Rastros da vida que podemos captar e testemunhar, mas o que dizer deles além de nossas teorias e tecnologia? Jung afirmou que há aspectos inconscientes de nossa percepção da realidade e, portanto, não podemos conhecer a natureza extrema da psique “pois a psique não pode conhecer sua própria substância”(JUNG, 1972, 23). Segundo ele, tampouco conhecemos a natureza extrema da matéria. “O alquimista experimentava sua projeção como propriedade da matéria, mas sua experiência, na realidade, era do seu próprio inconsciente”. (IDEM, 1994, § 345).

Quando lidamos com a psique, também projetamos o mesmo inconsciente sobre ela, mas Freud e Jung tiveram pontos de vista considerados tão diversos a este respeito que parece haver um tipo de inconsciente para cada modalidade de consciência. Pergunto se não cabe também sugerir que, de algum modo, todos os caminhos podem levar a Roma e que as teorias psicológicas refletem buscas e paixões do ego que, com o tempo, acabam sendo mais bem elaboradas e até mesmo substituídas. Tal como se diz: depois da paixão pode vir o amor, ou não. Talvez não seja disparate ou heresia dizer que se pode entender melhor Lacan depois de estudar Jung. E vice-versa. Paradoxal? É em Jung que aprendemos que a relação entre a consciência e o inconsciente (ego/Si – Mesmo) é um paradoxo. Sabe-se que ele se preocupou com o estudo dos tipos psicológicos muito para entender os vieses das paixões humanas, tal como as sentiu em sua dolorosa individuação frente a Freud. Foi assim que construiu uma psicologia através da integração dos pontos de vista não apenas de Freud, como também de Adler e outros.

… quanto mais o conhecimento penetra na essência do psiquismo, maior se torna a convicção de que a multiplicidade de estratificações e as variedades do ser humano também requerem uma variedade de pontos de vista e métodos, para que a diversidade das disposições psíquicas seja satisfeita. (IDEM, 1998, 11).

Se em Jung podemos ver os tipos psicológicos como parâmetros da subjetividade/objetividade da personalidade, o mesmo se pode dizer dos registros psicológicos lacanianos, o real, o simbólico e o imaginário, ou seja, o sujeito do Inconsciente visto a partir das diferentes instâncias do psiquismo “psicanalítico” – o id, o superego e o ego, respectivamente. Tal como aconteceu com a psicologia analítica desde o início, a psicanálise acabou por conceber sistemas psíquicos de certa forma personificados ou subjetivados, guardadas as diferenças conceituais e, pelo visto, tipológicas entre ambas. A marcação que se faz neste texto sobre tais paralelos não é para negar a necessidade das polarizações e diferenças na evolução da consciência e das teorias, ao contrário. No entanto, penso que o ego e a consciência em geral terminam por institucionalizar suas teorias e pontos de vista, mesmo quando estes chegam a conclusões que sutilmente se tangenciam e, em minha opinião, deviam dialogar. Não é à toa que não tenhamos uma psicologia mais integrada, mas psicologias e psicanálises que, via de regra, contrapõem-se indefinidamente como portadoras de verdades exclusivas e quase absolutas.

A ciência contemporânea, ou pelo menos parte dela – a física quântica, por exemplo – tem igualmente incluído a subjetividade em seus modelos teóricos e até mesmo compartilhado trabalhos com junguianos – veja-se, por exemplo, o escrito “Os opostos na Física Quântica e a Psicologia Junguiana”, de Victor Mansfield e J. Marvin Spiegelman (1991). Quando se faz tal movimento, relativiza-se a consciência e admite-se a participação das incertezas na experiência científica. Abre-se passagem para o que se denomina linguagem simbólica – a linguagem do Inconsciente ou do desconhecido. Jung definiu símbolo como “a melhor descrição, ou fórmula, de um fato relativamente desconhecido; um fato, todavia, postulado como existente” (JUNG, 1991 § 903).  “O símbolo tem um aspecto inconsciente mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. Ele conduz a mente a idéias que estão fora do alcance de nossa razão”. (IDEM, 1972, 20-21). Estas considerações trazem a preocupação com preservar a natureza do símbolo dos significados profanos da consciência. O símbolo em Jung é numinoso, sagrado, criador de consciência e não criado pela consciência. A especificidade desta abordagem simbólica é essencial à psicologia analítica e enfatiza a autonomia, a singularidade e a realidade do que Jung chamou de psique objetiva. Outros autores também tocaram no assunto por outra via:

Quando vocês vêem um arco-íris, vêem algo de inteiramente subjetivo… E, entretanto graças a um aparelho fotográfico, vocês o registram de modo inteiramente objetivo. Então, o que é isso? Não sabemos mais muito bem, não é, onde está o subjetivo, onde está o objetivo. Ou não seria que temos o hábito de colocar no nosso compreendedorzinho uma distinção muito sumária entre o objetivo e o subjetivo? O aparelho fotográfico não seria um aparelho subjetivo, inteiramente construído com a ajuda de um x e de um y, que habitam o domínio em que vive o sujeito, quer dizer, o da linguagem? (LACAN, 1994, 93).

Antes de Lacan, Freud também tropeçou com os mesmos paradoxos da psique através do que chamou “compulsão de repetição”, ou seja, a tendência do paciente a repetir na relação com o médico as vivências ou sentimentos sofridos, reais ou fantasiados. Pode-se estranhar que prefira, assim, o desprazer (gozo) ao prazer (desejo):

O que a psicanálise mostra-nos na transferência dos neuróticos pode ser encontrado nas pessoas não neuróticas, dando-nos a impressão de um destino que as persegue, de uma influência demoníaca que rege sua vida” (FREUD, O.C., III, 2516).

Fazer referência ao demoníaco em psicologia analítica é reconhecer no Inconsciente o espaço do númeno e do sagrado. Todavia, a psicanálise não fala dos deuses vivos da mitologia na experiência psíquica de todos os tempos, pois prefere calçar a autonomia do inconsciente na natureza da estrutura da linguagem. De qualquer forma, não é difícil verificar que entre todas as psicologias, ou pontos de vista psicológicos, o de Jung e o de Freud, particularmente quando revistos pelas leituras de Hillman e Lacan, respectivamente, constituem as vias que se preocupam de modo especial com a autonomia do Inconsciente frente à unilateralidade da consciência. Sabe-se que Hillman criticou os usos variados da palavra self nas teorias psicológicas: “Tentei também evitar que o termo mais pernicioso de todos, self se insinuasse em meus parágrafos. Essa palavra tem uma boca grande” (HILLMAN, 1997, 49) e Lacan temia a transformação da psicanálise em psicologia do ego, ambos preocupados em preservar o Inconsciente e sua autonomia singular das normatizações do ego e da unilateralidade da consciência.

De qualquer forma, a originalidade da ciência e do pensamento junguiano está, em grande parte, na atitude respeitosa da metodologia com o objeto estudado, em particular com seu sentido de inteireza. Uma abordagem quase poética, um tanto amorosa, que tende mais para o ritual religioso e a encenação mítica do que para a abstração científica e racionalista. Pode-se até mesmo dizer que se trata de um autor atravessado pelo mito de Eros e Psique.   “Dissolve a matéria em sua própria água” diriam com ele, concreta e simbolicamente, os alquimistas. As teorias de Jung parecem nascer do próprio tecido da psique que revela, ela mesma, seus princípios.  E o autor ainda explica através de sua obra mais “óbvia”:

Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana é que freqüentemente utilizamos termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender integralmente. Esta é uma das razões por que as religiões e a arte empregam uma linguagem simbólica e expressam-se através de imagens. (JUNG, 1972, 21).

Na verdade, esta concepção de símbolo expressa uma atitude que o levou a considerar a existência de uma estrutura coordenadora do psiquismo, o Si-Mesmo ou o Arquétipo da Inteireza ou totalidade da função psíquica: “escolhi o termo ‘si-mesmo’ para designar a totalidade do homem, a soma geral de seus conteúdos consciente e inconsciente”. Um conceito avaliado não apenas por Hillman:

“No momento em que escreveu o mais significativo de sua obra, a fantasia de reconstituição da psique humana – fantasia do ‘grande homem’ (cujo protótipo era Goethe), da totalidade da psique redesenhada a partir do Self, arquétipo central da personalidade, era vista como possível. O mundo que habitamos hoje definitivamente é outro. Não há lugar para uma psique que tenha como meta a unidade, a totalidade – ainda que ancorada no Self e não no eu, como propunha Jung. (MARONI, 30).

Por mais imagens que possa ter a noção de Si-Mesmo ou Self, incluindo a fantasia do ‘grande homem’, talvez Jung não a “propôs” como um modelo para o ser humano, mas apenas  localizou na alma do homem de todos os tempos uma tendência psíquica arquetípica para a inteireza ou totalidade. Trata-se de uma função simbólica, não histórica, ou filosófica e muito menos concreta. É viável supor que, por razões semelhantes, ainda que em contextos conceituais distintos, Lacan enfatizou em Freud a diferença entre eu-ideal e ideal do eu. A primeira, função imaginária, egóica; a segunda, função simbólica, superegóica. Por exemplo, para fundamentar a questão do Édipo e da castração, Freud (sujeito do Inconsciente) recorreu ao mesmo tempo à noção do pai selvagem e castrador da horda primitiva (imaginário) e à triangulação (número três) característica da situação edípica (simbólico). A primeira, imaginada e proposta; a segunda, dada e localizada, ainda que ambas a partir da cultura.

A palavra símbolo vem do Grego symbolon. Symbola são duas partes de moeda que são dadas a duas pessoas que fazem um acordo entre si. Cada uma preserva uma parte. Symbalo, o verbo, significa “juntar, unir”. Quando os dois pedaços da moeda são novamente unidos pelas partes contratadas, a totalidade é restaurada e a identidade afirmada. Um símbolo, então, torna a juntar dois pedaços separados em uma totalidade original, matéria e espírito. Esta totalidade unida porta a realidade da alma. (STEIN, 1999,  89).

Além da origem etimológica singular, Jung buscou o paralelo de sua visão simbólica na linguagem hermética, esquecida, desvalorizada e igualmente simbólica dos alquimistas. Considerava que os arquétipos representam a essência e a vida de uma alma não individual, inata em cada indivíduo, cuja personalidade, porém, não pode modificar, nem dela se apoderar. “É uma mesma alma no indivíduo isolado, em muitos, ou em todos os indivíduos. Da mesma forma que o mar é portador das suas ondas, esta alma universal é a condição prévia de toda a psique individual”. (JUNG, 1990, § 354). A opus alquímica estava relacionada com os poderes espirituais e divinos, mas o alquimista alternava em seu diálogo interior as presenças invisíveis de Deus, dele próprio ou de seu anjo benigno. Tratava-se de algo que se apresentava de modo mais próximo, concreto e íntimo do que um deus nas alturas, pois, para Jung:

Essa ‘prima materia’, ou ‘lapis philosophorum’, há séculos procurada e nunca encontrada, está no próprio homem, como intuíam acertadamente os alquimistas. Apenas, ao que tudo indica, este conteúdo nunca vai ser descoberto e integrado diretamente, mas só através da projeção (IDEM, § 383).

As imagens projetadas do alquimista eram projeções da alma, imagens e processos arquetípicos e “não devemos de forma alguma encará-los como fantasmas insubstanciais a modo de imagens da fantasia, mas como algo corpóreo dotado de um ‘corpus sutil’ de natureza semi-espiritual” (IDEM, O.C XII § 394). Jung explica que por não existir naquela época uma psicologia empírica da alma era fatal que reinasse um tal concretismo: tudo que o que era inconsciente projetava-se na matéria, isto é, vinha de fora ao encontro do ser humano, como é o caso do Symbola dos gregos, onde o físico e o psíquico fundem-se numa unidade indivisível. Logo, se o símbolo em Jung está estreitamente ligado a sua noção de Si-Mesmo, não se está falando de meras representações psíquicas ou de usuais concepções propostas pelo ego, mas da realização do Si-Mesmo através do ego ou da transformação de energia psíquica por meio dos símbolos, que tentam ligar ou re-ligar os processos inconscientes à consciência.

O espiritual também aparece na psique como um instinto, e mesmo como verdadeira paixão, como “um fogo devorador”, segundo a expressão de Nietzsche. Não deriva de outro instinto, como nos quer fazer crer a psicologia dos instintos, mas é um princípio sui generis, uma força específica e necessária da força instintiva. (IDEM, 1983, § 108).

Em Psicologia da Transferência, Jung utiliza o Rosarium Philosophorum, um texto alquímico acompanhado de vinte figuras, para colocar seu ponto de vista a respeito da transferência. Este conceito freudiano refere-se ao vínculo entre a criança e seus país, cujos aspectos incestuosos e inadequados o neurótico insiste em preservar, transferindo-os para outras pessoas, incluindo o analista. Trata-se do amor transferencial no relacionamento pessoal e patológico. A interpretação de Jung não exclui estes aspectos, mas também aponta para a existência de uma dinâmica do inconsciente coletivo que traz o amor, a paixão e a loucura como elementos a priori da transferência: a projeção do arquétipo da coniunctio. (LIMA, 2010). Assim, o próprio vínculo incestuoso com os pais já estaria potencialmente previsto na projeção do arquétipo.

A coniunctio é uma imagem apriorística. Desde os primórdios ocupa um lugar da maior relevância no desenvolvimento do espírito humano. Remontando à sua origem, vamos encontrar dentro da alquimia, duas fontes das quais derivam essas idéias: uma cristã, outra pagã. A fonte cristã é incontestavelmente o ensinamento do Cristo e da Igreja, o do ‘sponsus et sponsa’ (esposo e esposa), sendo que a Cristo cabe o papel de Sol e à Igreja, o de Luna. A  fonte pagã é o Hierosgamos (a hierogamia), por um lado e, por outro, a união conjugal do místico com a divindade. (JUNG, 1999, § 355).

Na mesma obra, Jung fala das figuras do rei e da rainha que aparecem nas gravuras do texto. A opus alquímica era, muitas vezes, realizada em conjunto, por um homem e por uma mulher, o adepto e a sóror.  Tomando-se como modelo simbólico esta realização conjunta, a díade rei-rainha que se vê em tais gravuras representa as projeções da anima e do animus dos executantes do processo, ou seja, a projeção de um relacionamento entre o lado feminino e inconsciente do homem e do lado masculino e inconsciente da mulher. Mais completamente, o trabalho alquímico sobre a matéria reflete, segundo Jung, a resultante psíquica de um relacionamento quaternário cruzado formado pelas consciências e inconscientes do adepto e da sóror. Como se tratava de um processo projetivo cuja natureza última desconheciam, ao mesmo tempo em que a intuíam, pode-se dizer que havia uma motivação inconsciente para trazer à consciência o lado feminino do adepto e o lado masculino da sóror, realizando a integração de opostos na personalidade. Isto é o que Jung chamou de processo de individuação, a discriminação dos aspectos do inconsciente coletivo que se acham amalgamados com a individualidade psíquica.

Ele explica esta motivação inconsciente para tal processo através do significado espiritual da libido sexual que Freud situou na raiz do complexo de Édipo e também recorre a suposições de natureza sócio-antropológica para justificá-la.  Na libido edipiana ou incestuosa “escondem-se… os sentimentos mais imorais e ao mesmo tempo mais sagrados, que constituem a multiplicidade indescritível e inexplicável das formas de relacionamento humano e as revestem de compulsividade” (IDEM, 49). Tratar-se-ia de sentimentos secretos, constrangedores, intensos e cheios de ternura, pudicos e vergonhosos. A libido de parentesco procura manter a família unida e, analogamente à libido sexual freudiana, revela em seu aspecto incestuoso a intensidade atraente dos sentimentos mais íntimos. Partindo destas concepções ao mesmo tempo parecidas, mas diferenciadas de libido, tem-se dois resultados também diferentes, mas paralelos e muitas vezes tangenciais com relação ao percurso de Eros no psiquismo.

Na psicanálise, Eros parte identificado ou caminhando lado a lado com a libido dita sexual,  infantil e  perverso-polimorfa, constituída por pulsões desencontradas. O desenvolvimento psicossexual inicia-se através do relacionamento mãe-bebê, onde o olhar da mãe provê a criança de uma ilusão de unidade e satisfação plena.  Trata-se do domínio do eu-ideal, configurando o registro do imaginário: o bebê só quer ser cuidado e alimentado e a mãe só quer cuidar.  Caracterizado pela idéia ilusória da satisfação plena, o eu ideal não encontra tal satisfação e nem se encontra nos objetos externos, que também podem frustrá-lo, destruindo sua ilusão de plenitude. Como esta ilusão lhe é necessária e constituinte, resta-lhe a saída de recriar seus objetos, internalizando-os através da representação na fantasia. Esta representação é uma nova forma do eu ideal – o ideal do eu – um estado psíquico que é um meio termo entre o eu ideal e o objeto externo, conservando-se o eu e o narcisismo sem que se desista do objeto, que é o outro. Caso não se consiga completar a operação toda, o eu fica reduzido ao estado de eu ideal, sendo tomado ou destruído pelo objeto. Em outras palavras, o narcisismo primário é a unificação das pulsões parciais sob a demanda e o cuidado dos pais, impondo-se a necessidade de um esforço psíquico para se separar deles e individualizar-se. O ideal do eu é a instância diferencial, que leva ao narcisismo secundário com a participação do eu e a inclusão do amor e da agressividade em uma dinâmica de fusão e separação.

Fonte das identificações com o outro, o ideal do eu é o precursor do supereu – instância simbólica por excelência. Freud utiliza muitas vezes estes termos como sinônimos, mas, ao que parece, destaca a função do ideal do eu para realçar dois movimentos diferentes no desenvolvimento psíquico com referência ao eu e ao supereu. No primeiro, o eu promove suas identificações com o objeto para fazer dele algo idêntico a si mesmo e tentar controla-lo através da fantasia e, no segundo, assimilando o objeto, o eu internaliza a lei que dá o limite representado pela existência do outro. São dois tempos: um de fusão e identificação e outro, de separação, afastamento e discriminação. Um, na via imaginária e narcísica, outro, na via simbólica que viabiliza a alteridade. Ao final deles, grande parte da sexualidade infantil é reprimida, retornando compulsoriamente na forma de amor narcísico ou apaixonado. A convivência humana e o amor só se tornam possíveis através da lei que leva ao acordo, expresso pela via simbólica da linguagem. O amor narcísico, porém, tem o poder de subverter a função simbólica e há momentos em que temos a impressão de encontrar exatamente o que desejamos, tal “como  era ‘vivenciado’ na relação mãe-bebê”. O outro se coloca no lugar de nosso desejo e/ou nós nos colocamos no lugar do desejo do outro. Trata-se da paixão, ou seja “… quando se está apaixonado, se é louco, como diz a linguagem popular”. (LACAN, IDEM, 166).

Agora, é somente através de incessantes movimentos de identificação/fusão e discriminação/separação que se pode chegar a um conhecimento de si mesmo e do outro. “É o que faz para o sujeito a necessidade do que chamarei amor” (IDEM, 202). É nesta busca compulsiva de si mesmo no outro, através de um caminho que vai do narcisismo primário ao secundário, do eu ideal ao ideal do eu, do eu pleno em si mesmo para os objetos externos, passando pelos objetos da fantasia,  que o sujeito pode superar ou transformar o desejo.

É preciso a uma criatura alguma referência ao além da linguagem, a um pacto, a um engajamento que a constitui, para falar propriamente, como um outro, incluído num sistema mais geral, ou mais exatamente universal, dos símbolos inter-humanos. Não há amor funcionalmente realizável na comunidade humana, se não é por intermédio de um certo pacto, que, seja qual for a  forma que toma, tende sempre a se isolar numa certa função, ao mesmo tempo no interior da linguagem e no exterior. É o que se chama função do sagrado, que está para além da relação imaginária. (IDEM).

Assim, a via psicanalítica parece referir-se ao racalque como um impasse constitucional do sujeito na assimilação do ser. O sujeito é o resultado de sua constituição expressa pelo Id, ego e superego, dentro dos registros psíquicos do real, imaginário e simbólico. Contudo, o sujeito não é o ser. Invocando a frase de Freud, “Lá onde o id estava, o ego há de estar”, Lacan se pergunta se devemos interpreta-la no sentido de uma ampliação de consciência, da conscientização do inconsciente ou se devemos considera-la como significando um deslocamento do plano do sujeito para o plano universal da linguagem. Em suma, um deslocamento do plano do sujeito para o plano do ser em suas infinitas possibilidades simbólicas do mundo da linguagem. Por isso, conclui: “Lá onde o id estava – não acreditem que ele está lá. Está em muitos lugares”. (IDEM, 225).

O superego é uma instância de identificações simbólicas culturais, grupais, familiares e individuais, que limita as possibilidades simbólicas do ser, incluindo o amor e a paixão. Herdeiro do complexo de Édipo, ele “cinde o mundo simbólico do sujeito, corta-o em dois, numa parte acessível, reconhecida, e numa parte inacessível, interditada”. (IDEM, 226). O superego limita as possibilidades de realização do ser, recortando no universo simbólico apenas um fragmento. Esta interdição faz-se através do complexo de Édipo porque este “ocupa uma posição privilegiada na etapa atual da nossa cultura, na civilização ocidental”. (IDEM, 229) O sujeito é sempre chamado a situar seu desejo no simbólico, mas a exigência do complexo de Édipo “nem por isso nos dispensa de nos apercebermos de que outras estruturas do mesmo nível, do plano da lei, podem desempenhar, num caso determinado, um papel igualmente decisivo”. (IDEM, 230). Assim, apontando para a importância de outros mitos, além do de Édipo, na constituição psíquica, Lacan esclarece: “O que Freud nos mostra, pois, é isto – é na medida em que o drama subjetivo é integrado num mito que tem um valor humano extenso, e mesmo universal, que o sujeito se realiza”. (IDEM, 221).

Depois de percorrer inúmeras vezes o caminho do imaginário ao simbólico, do eu ideal ao ideal do eu, nomeando e reintegrando sua história imaginária e seus desejos angustiantes, nem por isso tudo está acabado, pois o sujeito “deve ir se reportar no sistema completado dos símbolos”. (IDEM, 230). No entanto, “… o homem contemporâneo se tornou singularmente inábil para abordar esses grandes temas. Prefere resolver as coisas em termos de conduta, de adaptação, de moral de grupo e outras banalidades”. (IDEM).     Lacan termina diferenciando o amor no sujeito e o amor no ser. “O amor distingue-se do desejo, considerado como relação-limite que se estabelece de todo organismo ao objeto que o satisfaz. Porque seu ponto de mira não é a satisfação, mas o ser”. (IDEM, 314).   Assim, “não se pode falar de amor senão onde a relação simbólica existe como tal”. (IDEM). Deve-se “distinguir agora o amor, como paixão imaginária do dom ativo que constitui no plano simbólico…  o amor daquele que deseja ser amado, é essencialmente uma tentativa de capturar o outro em si mesmo, em si mesmo como objeto”. (IDEM). Ou seja, trata-se também de amor, mas amor narcísico, sofrido, que se satisfaz muito pouco com ser amado por seu bem.

“O amor, não mais como paixão, mas como dom ativo, visa sempre, para além da cativação imaginária, o ser do sujeito amado, a sua particularidade. É por isso que pode aceitar dele até muito longe as fraquezas e os rodeios, pode mesmo admitir os erros, mas há um ponto em que pára, um ponto que se situa a partir do ser – quando o ser amado vai muito longe na traição de si mesmo e persevera na tapeação de si, o amor não segue mais”.  (IDEM, 315).

Finalizando o seminário sobre os escritos técnicos de Freud, Lacan faz menção à dialética do senhor e do escravo, válida para as relações em geral e para a relação analítica:

“O sujeito que pensa o pensamento do outro, vê no outro a imagem e o esboço dos seus próprios movimentos. Ora, cada vez que o outro é exatamente o mesmo que o sujeito, não há outro mestre exceto o mestre absoluto, a morte. Mas é preciso ao escravo um certo tempo para ver isso… Porque ele está bem contente de ser escravo, como todo mundo”. IDEM, 327).

Em Psicologia Analítica, o amor parte da libido de parentesco já mencionada e sua espiritualização como os complexos psíquicos da anima e do animus, representantes das forças arquetípicas e numinosas de reis, rainhas e divindades masculinas e femininas.

Na imagem da divindade, ela se encontra projetada de um modo manifesto, mas quando ela aparece em sua própria forma (psicológica), ela é introjetada:… é a ‘anima within’ (anima interior). É a sponsa (esposa) natural, ao mesmo tempo mãe, irmã, filha e esposa do homem desde a origem dos tempos; é essa companheira que a tendência endógama espera em vão encontrar na mãe ou na irmã. Exprime aquele anseio íntimo que, desde os tempos mais remotos, teve que ser sacrificado (JUNG, 1999, § 438).

Como se trata de um instinto, não há substituto para a libido de parentesco. Ela quer  o vínculo humano e o parceiro de relacionamento apresenta-se inicialmente como sua via de realização, embora não constitua seu fim e tampouco seu meio exclusivo. Isto significa que, se por um lado, a projeção nunca será eliminada, por outro ela deve ser submetida à reflexão ou à meditação, como preferiam os alquimistas, “porquanto a relação com o Si-mesmo é ao mesmo tempo a relação com o próximo. E ninguém se vincula com o outro, se antes não se vincular consigo mesmo”. (IDEM, § 445). Este paradoxo é a questão central do amor humano: o homem é compelido a buscar no parceiro aquilo que no final está em si mesmo. Não é sem motivo que Eros é considerado um intermediário entre os deuses e os homens e tampouco são mera espuma as palavras de Orígenes: “Entende que és um outro mundo em miniatura; e que o sol, a lua e até as estrelas estão dentro de ti”. (IDEM, § 397).

A seqüência de acontecimentos que envolvem o rei e a rainha do Rosarium referem-se à  transformação da consciência universal, mas esta transformação  só é alcançada  através da individualidade de sucessivos relacionamentos humanos. O processo reflete um encontro de prazer e sofrimento entre psiquismos que eventualmente sairão profundamente modificados pela vivência de Eros. Diz-se ‘eventualmente’ porque tais encontros podem ser vividos de modo inconsciente ou consciente durante a existência individual. No primeiro caso ele é vivido quase que exclusivamente através das projeções nos relacionamentos e, no segundo, ainda que se projete da mesma forma, existe uma atitude que incorpora um olhar reflexivo sobre o que é projetado no outro.  O processo consciente é complexo e trabalhoso, pois busca encarar com consciência o sofrimento que sempre existe, consciente ou inconscientemente.

Se é preciso pagar pelo caminho errado, o certo também tem seu preço. Por mais que os alquimistas celebrem a ‘venerabilis natura’ (venerável natureza), trata-se de qualquer maneira de um ‘opus contra naturam’. É contra a natureza cometer um incesto e é contra a natureza não seguir uma forte atração… Aquele que se encontra a caminho da totalidade não pode escapar desta estranha suspensão representada pela crucifixão. Com efeito, ele encontrará infalivelmente aquilo que atravessa o seu caminho e o cruza, isto é, em primeiro lugar aquilo que ele não queria ser (a sombra), em segundo lugar, aquilo que não é ele, mas o outro (a realidade individual do tu) e em terceiro lugar, aquilo que é seu Não-eu psíquico, o inconsciente coletivo.   (IDEM, § 469).

A dedicação e fascinação extremas do alquimista pela opus ficam mais  compreensíveis  quando  se  entende  que  ele  lidava  com as forças arquetípicas do  domínio de Eros. No Rosarium Philosophorum estas forças aparecem na forma de um casamento sagrado – o hierosgamos – uma conjunção do rei e da rainha, ou a relação incestuosa entre os deuses e irmãos gêmeos Apolo e Diana. Não é por acaso que estes deuses também possuem o arco e a flecha. Ambos estão ligados pelo amor incestuoso que se refere à ligação com o que há de mais próximo ao homem e que é ele mesmo. Este amor incestuoso constitui a base dos relacionamentos afetivos, levando homens e mulheres a procurar, respectivamente, a anima na mãe, na irmã e nas mulheres em geral e o animus no pai, no irmão e nos homens em geral. A coniunctio do rei e da rainha revela-se, portanto, uma união ilegítima e incestuosa por princípio, já que sua natureza última expressa a união do ser consigo mesmo, ou seja, a individuação ou a auto-realização.

O objetivo essencial do ‘opus psychologicum’ é o desenvolvimento da consciência, isto é, em primeiro lugar, a tomada de consciência dos conteúdos até então projetados. Esse esforço leva pouco a pouco ao conhecimento do outro, bem como ao conhecimento de si e assim, a distinguir o que a pessoa é na realidade daquilo que nela é projetado ou o que ela fantasia a seu respeito. Neste processo estamos tão empenhados em nosso próprio esforço que  mal percebemos a que ponto a ‘natureza’ nos impele e nos ajuda; em outras palavras, mal percebemos o quanto o instinto está interessado em atingir esse nível superior de consciência. (IDEM, § 471).

Em linhas gerais, a via alquímica de transformação, retratada nas  pranchas do Rosarium Philosophorum, coincide com o processo de individuação, pois “descreve um modelo de transformação que ocorre continuamente no inconsciente enquanto ele se esforça para criar um si-mesmo em um tempo de vida”. (SALANT, 1998, p. 175).  Isto significa aproximar o ego consciente do inconsciente realizando a integração de aspectos do inconsciente pessoal e coletivo que não estão presentes na consciência individual.  Como o individuo é parte de uma coletividade, a individuação não apenas transforma sua própria consciência como também a consciência enquanto valor universal de todos os homens e de todas as épocas.

No entanto esta meta não será atingida, se o homem não se puser livremente a seu serviço. Para os alquimistas, o ‘artifex’ (artífice) da obra é o servidor, e não é ele, mas sim a natureza que leva à perfeição. Contudo, isso exige vontade e saber por parte do homem. Faltando essas duas coisas, o impulso em direção à consciência permanece preso ao nivel do simbolismo primitivo e apenas perverte aquele desejo de totalidade. Este, para realizar seu objetivo, precisa de todas as partes da totalidade, inclusive as que são projetadas em um tu. É aí que o artífex vai procurá-las, a fim de reconstituir aquele casal régio que está presente na totalidade de todo ser humano, ou seja, aquele homem primordial bissexuado ‘que se basta a si mesmo’. Quando esse instinto se manifesta, ele aparece primeiro disfarçado no simbolismo do incesto, pois o feminino mais próximo de um homem é sua mãe, sua mulher ou sua filha, quando ele não o procura dentro de si. (IDEM).

O Rosarium Philosophorum descreve o percurso a caminho da totalidade através de uma seqüência de operações alquímicas cujas substâncias impuras são personificadas pelo encontro entre o rei e a rainha. Este encontro representa o início de qualquer relacionamento no qual a sombra, a realidade individual do tu e o inconsciente coletivo acham-se amalgamados, ou seja, inconscientes e indiscriminados, condição que é representada simbolicamente pela  relação incestuosa  entre os  parceiros.    Tais aspectos deverão ser trazidos à consciência e discriminados.  Em outras  palavras,  a  totalidade  já existe de forma inconsciente, mas o Si-mesmo quer realizar-se conscientemente na vida através do ego. Tornar consciente um conteúdo do inconsciente é um acontecimento que modifica ambas as instâncias psíquicas, refletindo na consciência a atividade compensatória do inconsciente. Logo, ainda que em essência o Rosarium refira-se a um processo inconsciente, configura-se através dele a idéia de um casamento entre a consciência e o inconsciente e este casamento, ainda que desejado, é incestuoso e traz consigo um desequilíbrio do ego face às propostas sempre mais abrangentes do Si-mesmo. O ego é instigado a rever-se a todo o momento, renunciando às estruturas conseguidas com grande esforço e cedendo à renovação. Jung dizia que a vivência do Si-mesmo é uma derrota para o ego, sendo acompanhada por estados de excesso, inflação, desorientação, culpa,   mortificação, desmembramento e loucura.

Em todo caso, a integração de conteúdos que sempre estiveram inconscientes projetados significa uma grave lesão do eu. A alquimia exprime este fato através dos símbolos da morte, ferimento, envenenamento, ou então através da estranha idéia da hidropisia, representada… pela ingestão excessiva de água pelo rei.(IDEM, § 472).

Em qualquer dos percursos apresentados é evidente a  importância fundamental da atitude ou estado do ego no relacionamento com a totalidade psíquica. Na psicanálise, a oscilação entre  o eu ideal e o ideal do eu determina o maior ou menor grau de repressão e conseqüente realização do ser no desenvolvimento psíquico.  O incessante vai-e-vem das identificações e desidentificações do ego constitui um movimento contínuo de fusões e separações para lidar com um narcisismo que levou à concepção de um inconsciente reprimido. O amor e o ódio ficam fora do circuito pulsional, como categorias à parte. Em psicologia analítica, ainda que a questão narcísica não determine tão intrínsicamente a natureza do inconsciente, a atitude do ego e do estado de consciência são fundamentais para a realização do Si-Mesmo e, portanto, da potencialidade psíquica. O ego deve elaborar a sombra e a identificação com o inconsciente coletivo para de fato relacionar-se consigo mesmo e com o outro. Antes disso, trata-se de paixão, um estado compulsivo, mas necessário, que corresponde ao amor narcísico considerado por Lacan. De um modo extremamente próximo à elaboração final feita pela psicanálise, Salant sintetiza os movimentos do processo:.

“Deve-se aprender como entrar e sair do campo de união; e até que se adquira experiência suficiente para lidar com a área, não se entrará inteiramente, permanecendo-se narcisisticamente isolado ou, então, tentar-se-á entrar para ser engolido de imediato pelas energias magnéticas do campo, fundindo-se a elas. O empreendimento completo é extremamente doloroso, pois antigos laços são abertos e saltam no processo. Contudo, descobre-se o próprio caminho somente através de repetidas excursões no território e, através do sofrimento, os laços feridos podem ser propriamente curados com o tempo. (LIMA, 2010 apud SALANT 1998).

Trata-se dos movimentos intermitentes e compulsivos que resultam na assimilação dos complexos através da projeção (fusões -identificações) e em sua contínua elaboração na consciência mediante a reflexão (separações -desidentificações).  O processo todo leva a sucessivas mortes e renascimentos do ego através da seqüência coniunctio-nigredo-albedo-rubedo, tal como é  ilustrada no texto alquímico Rosarium Philosophorum, utilizado por Jung em Psicologia da Transferência. Neste ponto, a psicologia analítica pareceu-me ser extremamente feliz por trazer à consciência a possibilidade  da morte do ego como símbolo de transformação. A meu ver, a coniunctio anima-animus nela presente expressa a própria natureza do símbolo na concepção junguiana,  revelando-se particularmente como prima-materia da elaboração dos princípios do Eros e do Logos,  respectivamente responsáveis pelas  aproximações-identificações-fusões e distanciamentos-separações-desidentificações nas relações humanas.

Isto pode não ser tudo, mas já é um tanto. Assim como Jung foi em busca dos esquecidos alquimistas, um dia talvez saiam em busca de  um esquecido Jung. Os dias atuais com freqüência parecem apontar na direção de um tempo cada vez mais carente de ritos, mitos e poesia,  rumo à massificação tão temida pelo médico suiço. No entanto, pode ser que tal não aconteça. Um dia destes, em uma atividade não muito “profunda”, mais precisamente fazendo uma esteira na academia, assisto pela MTV um gordinho americano, adolescente,  limpando a casa com um aspirador de pó. De repente, ele cutuca algo embaixo do sofá e apanha-o. Era uma estranha metade de prato, cortada irregularmente ao meio. Vê que aquilo brilha e pulsa, mas, não sabendo o que significa, abandona-o sobre a mesa. Logo depois, porém, encontra a outra metade em outro canto da sala e junta as duas partes reintegrando o prato inteiro. O brilho emitido pelo objeto foi agora maior. Mesmo assim, ele não capta o significado daquilo e joga o prato no lixo. No dia seguinte, lê pelo jornal que um gari ao recolhê-lo havia ficado rico, ganhando na loteria. O gordinho maldiz intensamente a própria ignorância. Todavia, na manhã do outro dia, fica sabendo que o gari havia morrido por ter um raio lhe caído sobre a cabeça. O aparelho de TV da academia estava sem som, mas, aparentemente, nada é mencionado a respeito do Symbalo. No entanto, ele estava ali, vivo e pulsante  no clipe do Andy Milonakis Show…

… não se trata de provar a existência da luz, e sim  de que há cegos incapazes de saber que seus olhos poderiam enxergar (JUNG, 1994 § 14).

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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o tem um aspecto inconsciente mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. Ele conduz a mente a idéias que estão fora do alcance de nossa razão.

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O Livro Vermelho de Jung http://sbpa-rj.org.br/site/?p=761 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=761#comments Thu, 29 Jul 2010 15:17:21 +0000 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=761 Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. O suíço Carl Gustav Jung tinha 38 anos em 1913.…

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Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. O suíço Carl Gustav Jung tinha 38 anos em 1913. Psicanalista, tornara-se discípulo dileto do neurologista austríaco Sigmund Freud. Isto, em sua vida, significava o melhor. O pior, como a Primeira Guerra Mundial, estava por vir. Antes que ela eclodisse, Jung viu o Mar do Norte transformar-se em torrentes de sangue. Mas algo ainda mais forte que esta visão o devastaria.

Um dia, Freud lhe negou um pedido. Jung quisera detalhes sobre a vida particular do mestre porque buscava elementos para interpretar um sonho que ele lhe relatara. Mas os olhos de Freud se encheram de desconfiança com a ousadia. Ao negar a informação, invocando sua autoridade neste relacionamento profissional que já durava seis anos, Freud imediatamente a perdeu diante de Jung.

O rompimento levou o suíço não aos livros, à bebida ou às drogas, mas aos brinquedos. Desde criança, além de ilustrar batalhas, Jung montara cidades com blocos e simulara terremotos para derrubá-las. Mas brincar de engenheiro mirim com dez anos de idade era diferente de fazer coisas idênticas com quase quarenta, ainda por cima durante os intervalos de sua clínica psiquiátrica. Ninguém, naquele início de século XX, assumiria viver as próprias fantasias tão intensamente, a menos que fosse louco. Jung jamais duvidou, por isso, enfrentar um surto psicótico ao recepcionar aquele arranjo de falas íntimas, nascido das brincadeiras de encaixe.

De 1914 a 1930, o psicanalista ouviu vozes e dialogou com elas na casa familiar de Sehestrasse, a rua do Lago na suíça Küssnacht. Artista plástico de talento, anotou em óleos as suas muitas inacreditáveis visões, todas as que ele jamais procurara afastar, em um processo que designou “imaginação ativa”. Seres míticos, serpentes, mandalas e nuvens vermelhas, em representações soberbas, sobrepunham-se à cidade tranqüila. As páginas lembravam as de um códice medieval, e Jung misturava as línguas com que designava suas iluminações. O latim, o grego e o alemão vinham mesclados em uma escrita gótica que percorria as páginas como se um monge copista as tivesse produzido.

Jung organizou essas imaginações em uma edição intitulada O Livro Vermelho (Líber Novus), mantida no guarda-louça. Bastante conhecida por sua família, foi aberta ao público leitor apenas no segundo semestre do ano que passou. Os estudiosos aguardavam o livro havia muito tempo, já que ele definira o caminho particular de Jung dentro da ciência psicanalítica. Em 1957, na autobiografia Memórias, Sonhos e Reflexões, ele escreveu: “Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores constituíram a época mais importante da minha vida. Neles, todas as coisas essenciais se decidiram. Foi então que tudo teve início e os detalhes posteriores se tornaram apenas complementos e elucidações. Toda a minha atividade posterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles anos e que inicialmente me inundara. Era a matéria-prima para a obra de uma vida inteira”.

No Brasil, o livro chega em meados do ano, pela editora Vozes, que incumbiu Carlos Orth, por oito meses, da tradução do extenso material em alemão. A introdução e as notas em inglês do organizador da obra, o historiador paquistanês Sonu Shamdasani, foram feitas na edição brasileira por Gustavo Barcellos e Gentil Titton. Walter Boechat acompanhou toda a tradução e fez a revisão técnica deste livro, a ser impresso em maio na gráfica da editora italiana Mondadori, seguindo as especificações da Norton original. Serão 404 páginas em formato de 29 cm x 39 cm, capa dura vermelha, autor, título e editora impressos em dourado.

O livro extraordinário estará brevemente entre nós, mas o que nos quererá dizer? Este é o mistério, este, o motivo de todos os estudos e reflexões que fervilham a partir de agora, cinco décadas após a morte do psicanalista, aos 85 anos, em 1961. A família não queria dar ao conhecimento público esta faceta que considerava controversa do pensador. Temia as polêmicas que sempre seguiram o antepassado, deixando-o muitas vezes só, e injustamente, naquele limbo habitado por médiuns, espíritas e charlatães. O tempo se encarregou de mudar suas impressões.

Carlos Byington, fundador da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, mergulha nesses estudos com o encantamento de junguiano sem dúvidas acerca de sua filiação, ciente do preconceito em relação a este pensador que ainda habita os meios intelectuais. Para início de conversa, em sua casa, no bairro paulistano de Moema, Byington afasta de Jung a possibilidade de loucura.

“Muitas pinturas do livro são compostas segundo as representações que antecedem uma crise psicótica, por exemplo, as serpentes devorando o mundo”, afirma o brasileiro. “Muitos dizem que Jung viveu um surto. Outros, que era psicótico. Muitos psicanalistas sustentam que ele rompeu com Freud porque era psicótico. Há opiniões variadas. Com minha experiência de vida e de psiquiatria clínica, digo que Jung nunca foi psicótico”. Byington tem duas edições do Livro Vermelho para mostrar à reportagem, embora somente aquela de cem dólares, disponível por encomenda na internet, ele permita ser tocada. A outra, uma rara impressão de luxo, deve ser vista à distância, sobre a mesa de vidro.

Para Byington, a solidez do pensamento do intelectual está intacta, ele que morreu completamente lúcido e em idade avançada, pai de cinco filhos. O que Jung fez no livro foi expor imaginações, não alucinações, mas esta diferenciação, os psiquiatras da época não teriam sabido fazer. “Um erudito dentro da cultura alemã, Jung tinha uma capacidade de estudo enorme. Neste livro, ele cruza todas as culturas do mundo, antes de conceber a teoria do arquétipo”, afirma o psicanalista.

Jung, lembra Byington, fora um entusiasmado por Freud desde a publicação de A Interpretação dos Sonhos, em 1900. Sua tese para a universidade, de 1902, em torno dos fenômenos ocultos, citava-a várias vezes. O esoterismo era um assunto da infância, nascido das vivências mediúnicas de uma prima. “Ele fora sempre ligado em parapsicologia, nos fenômenos irracionais, inexplicáveis, que a psique apresenta, e na tese explicava essas ocorrências como psicológicas”, diz Byington. “Ele ligava a psique à transcendência. Daí para a vivência de deus percorreu um caminho direto. Essa função arquetípica dentro de nós é a mesma construída pela religião”.

Havia entre ele e Freud um mundo de aproximações e também de discordâncias, nunca trabalhadas pelos dois em análise. Para Jung, por exemplo, ao contrário do que acreditava Freud, os sonhos não explicavam a consciência. Na autobiografia, o suíço escreveu: “Não tinha qualquer motivo para supor que as malícias da consciência se estendessem também aos processos naturais do inconsciente, pelo contrário. A experiência cotidiana me ensinou com que resistência encarniçada o inconsciente se opõe às tendências do consciente”.

Jung acreditava que suas fantasias relatadas no livro tinham uma existência própria, que não se vinculavam a suas experiências familiares ou vivências sexuais. Ele também queria a religiosidade e os mitos como expressão natural da psique. Freud, um ateu formado dentro do positivismo, advogava a sexualidade como um dogma “contra a lama ocultista”. Em oposição a isso, no Livro Vermelho, Jung fala de uma força primordial que contraria toda a erudição, a cultura, o racionalismo da ciência. “A edição é um encontro dessas duas forças dentro dele”, diz Byington. “Uma burguesa, natural, que ele acha superficial, ridícula, medíocre, a cultura da erudição. Outra é uma força natural, profunda, independente, que está presente no sonho e na imaginação.”

Para apreender as fantasias, conta Jung em suas memórias, ele partia muitas vezes da representação de uma descida até as profundezas cósmicas. Em uma dessas ocasiões, ao pé de um alto muro rochoso, viu duas figuras: a de um homem de barba branca e a de uma bela jovem. Abordou-os como se fossem reais e escutou o que lhe diziam. O idoso lhe contou ser Elias, o profeta. A moça, Salomé, era cega. Elias assegurou-lhe que ele e Salomé estavam ligados por toda a eternidade. Vivia com eles uma serpente negra que se inclinava na direção de Jung.

Em inúmeros relatos míticos, não desconhecidos pelo psicanalista, encontram-se exemplos desse par. Segundo a tradição gnóstica, por exemplo, Simão, o Mago, peregrinava com uma jovem, Helena, tirada de um bordel. Nos mitos, a serpente é muitas vezes a adversária do herói. Para Jung, a serpente anunciava o mito do herói. Salomé, cega, sem ver o sentido das coisas, representava o elemento erótico. Elias, o velho sábio, o conhecimento.

De Elias, nasceu uma das figuras centrais deste Livro Vermelho, Filemon, como Jung o denominou. Sua imagem aparecera primeiro em um sonho. Era um velho alado com chifres de touro. Trazia um feixe de quatro chaves, uma das quais estava em sua mão como se fosse abrir uma porta. As asas se assemelhavam às do pássaro martim-pescador. Dois dias depois de pintar essa representação, Jung viu um martim-pescador morto em seu jardim, à beira do lago. Em Filemon, o psicanalista detectou um conhecimento das coisas que se fazem por si mesmas, com vida própria, já que aquele ser não representava o eu. A partir desta descoberta, Jung adentrou na visão do inconsciente de todos, contra o inconsciente de um, aquele de Freud. O Livro Vermelho, sabe-se agora, é um livro de revoluções.

Revista Carta Capital, março de 2010.
Por Rosane Pavan

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Convivendo com sonhos http://sbpa-rj.org.br/site/?p=880 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=880#comments Mon, 26 Jul 2010 23:21:00 +0000 http://sbpa-rj.org.br/site/?p=880 A pesquisa científica já demonstrou que sonhamos todas as noites. Se pensarmos em termos do tempo de vida médio, por…

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A pesquisa científica já demonstrou que sonhamos todas as noites. Se pensarmos em termos do tempo de vida médio, por volta dos 70 anos, passamos 1/3 dormindo e muito desse tempo a sonhar. É um tempo enorme que passamos no “outro mundo”. Devemos, portanto, prestar atenção aos nossos sonhos, pois eles têm uma função importante em nossas vidas: a função básica de ampliar nossa consciência.

Por quê sonhar? Como você se relaciona com os seus sonhos? Que lugar ele ocupa em sua vida? Enfim, de que maneira podemos conviver com os sonhos?

Jung, ao longo de toda sua história, como nos mostra em suas memórias, guiou sua vida e trabalhos numa relação intensa com seus sonhos, que significava, para ele, a essência da sua vida.Ele não interpretava seus sonhos formando uma idéia clara do seu significado; ao contrario, ele convivia com seus sonhos, ruminava-os e questionava a respeito. Entendia-os como se fossem “dramas interiores”, em que o sonhador representa todos os papeis: atores, espectadores e cenário. Nas palavras de Von Franz em Dreams: “O elemento iluminador de um sonho é como a luz de uma vela, que se torna pálida tão logo alguém acende a luz elétrica da consciência do ego”.

Na abordagem junguiana, os sonhos são mensagens, declarações alegóricas e /ou simbólicas sobre a situação psicológica do sonhador. O sonho é uma das vias que ajuda o individuo a compreender o significado da sua vida, do seu sofrimento e de ser quem ele é, apresentando-se, portanto, como uma auto-representação do processo vital psíquico. Cientistas, artistas e muitas pessoas relatam idéias criativas surgidas durante os sonhos; momentos de inspirações nos quais idéias súbitas brotam do inconsciente como fonte de sabedoria. Parece existir uma matriz psíquica de onde jorra inspirações, que alguns chamam de guia espiritual interior e Jung denominou de Self.

Os sonhos nos auxiliam a acessar essa matriz, Self ou centelha divina que é fonte de inspirações em nossas vidas.

Como os sonhos provêm do inconsciente, eles têm em comum a mesma linguagem simbólica das artes, dos mitos, do folclore e dos rituais religiosos, que são todos resultantes da imaginação. Alguns desses símbolos nos chegam através das culturas e dos tempos. Uma forma de amplificação é encontrar temas universais nos mitos e no folclore que são comparáveis às imagens presentes no sonho. Outra forma é perceber o próprio corpo, pois consideramos que ele registra as nuanças dos sentimentos inconscientes. Temos uma memória corporal. Ao examinarmos um sonho devemos relaxar um pouco, fechar os olhos permitindo que a intuição e o sentimento se expressem e, só depois passar para a compreensão intelectual. Imagens e sentimentos são como dois lados de uma mesma moeda, e entrar em contato com um sentimento pode gerar um processo espontâneo de amplificação.

O acesso a esse nível de comunicação, como enfatizou Jung, só é possível em uma combinação entre sintonia artística, emocional, intuitiva e lógica racional. O significado psicológico das imagens só se dá em um contexto, numa trama de associações, explicações e amplificações que elas evocam. Tornam-se, então, metáforas – descrições de uma coisa em termos da imagem de outra.

O compromisso com o processo de individuação implica a convivência com os sonhos. Para lembrar dos sonhos e acompanhá-los como em um seriado é preciso disposição para anotá-los com todos os detalhes, por mais insignificantes que pareçam. Além da qualidade e quantidade é importante registrar também os sentimentos, as intenções e reações, enfim, como o ego onírico se comportou no sonho. Não se preocupe com o esquecido, fique com o que você lembrar.

Anote a cena onírica e todas as associações que vierem, qualquer lembrança, não despreze nem desconsidere imagens ou idéias que surgirem. Se preferir desenhe, sem preocupação com estética, e pergunte: “Por quê será que eu tive esse sonho?”

Em busca da resolução de problemas, os sonhos despertam em nós as mais distintas emoções, sempre apontando para o que desconhecemos ou não suportamos admitir, ou seja, o nosso lado sombrio. Muitas vezes quando não entendemos a linguagem do sonho ela pode se tornar perturbadora exagerando para ser ouvida – enchentes, terremotos, marés altas, precipícios – assim como uma criança que grita para chamar atenção. Assim que a imagem toma forma, o significado torna-se claro quando, a principio, privilegiamos a contemplação à espera da compreensão psicológica. Compreender as imagens é uma tarefa difícil, portanto, não tentar decifrá-las rapidamente é da maior importância. A atitude adequada para ouvir a voz interna é de calma, pois só assim ela se tornará mais expressiva, não para dizer o que gostaríamos, mas a verdade que precisamos ouvir. Daí a importância de aprendermos a conviver com os sonhos e de usarmos técnicas que nos auxiliem nessa convivência.

Arrefecer a arrogância do nosso ego e aceitar o inconsciente nos sintoniza com camadas mais profundas da nossa psique. À medida que a aliança se desenvolve temos mais condições de reconhecer a nossa “voz interna” com sua maturidade e sabedoria. Estabelece-se então, a ética que o caminho de individuação impõe, ou seja, a concordância entre o mundo interno e externo, o imperativo de deixar que a “voz interna” influencie nossa vida.

Marfiza Ramalho Reis
Membro analista fundador da SBPA/RJ

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